domingo, 1 de dezembro de 2013

Viver ou sobreviver?

Voltando para a residencia onde me encontrava hospedado em uma de minhas visitas a BH tive a necessidade de utilizar o metrô. Fazia muitos anos que eu não o utilizava. Desde minha época de 2º grau durante alguns anos de trabalho onde diariamente o pegava.

Naquela época  por fazer parte da grande massa de pessoas com deficit em tempo não me  identificava com a participação que tinha no desespero da massa. Quando fazemos parte de uma rotina não reparamos o quanto o tempo é curto para nós e o quando pequenas coisas não fazem a menor diferença.

Sobrevivia.

Digo “sobrevivia” pois como o dia a dia da nossa grande massa de trabalhadores me encontrava apressado correndo de um metrô para o outro, de um ônibus para o outro, sempre em passos largos, afoito, com respiração ofegante, olhando constantemente para o relógio, contando os minutos para sair do ônibus e entrar no metrô. Não olhava pro lado,  apenas olhar fixo no próximo obstáculo. Se aparecesse alguém conhecido do meu lado eu não repararia. Se minha mãe tivesse fazendo jogos pirotécnicos no sinal de trânsito eu não notaria.

Esse ritmo de vida me consumia. Independente do emprego que eu conquistava ou me deparava com a massa populacional em meio a uma maratona rotineira ou me encontrava 2 a 3 horas de trânsito por dia onde a paciência se tornava sua maior virtude tanto pelo aspecto tempo quanto pelo aspecto humano.
Uma das características do parkinson é a lentidão. Não uma lentidão de raciocínio e sim uma lentidão física. Mas é mais acentuada e notória quando estamos sem remédio, chega a dar raiva. Quando estamos em dia com os remédios e exercícios físicos esse sintoma praticamente desaparece. Mas mesmo assim ela está lá e as vezes ela se torna evidente.

Com o tempo aprendi a lidar com isso e como tudo na vida me adaptei. E com a adaptação, o aprendizado. Forçosamente fui aprendendo a fazer as coisas com mais calma e consequentemente aprendi a desfrutar do tempo e das ações da melhor maneira possível e utilizá-lo com qualidade.  Aprendi a dar valor a cada instante da minha vida e tê-la como aliada e não correr contra ela. Aprendi que posso mais que sobreviver.

Vivo

Quando estive  pela última vez no metrô, em uma das passarelas fui atropelado duas vezes. Na primeira vez por uma mulher de sacolas com o filho pequeno que gritava para todos saírem da frente, mas eu absorto em meus pensamentos fui surpreendido com uma sacolada nas costas. Não sei o que ela carregava, mas parecia um toco de madeira porque doeu muito. Tudo isso porque o trem se aproximava. E eu me indagava sobre o tempo de um trem para o outro. Marquei, eram 12 minutos. O desespero era para ganhar 12 minutos. Talvez não seja importante para mim, mas para aquela mulher de sacola com um tronco de árvore na bolsa esses minutos eram importantes.

Comecei a reparar ao redor. “Todas” as pessoas corriam, olhavam pro relógio, balançavam a cabeça negativamente quando encontravam um obstáculo, falavam ao celular, gesticulavam sozinhas, corriam ao avistarem o trem surgindo longe da estação. Alguns comiam enquanto  corriam ou corriam enquanto comiam, outros andavam a passos largos fixos no próximo transporte. E pensar que amanhã tinha tudo isso novamente.

Nesse momento fui surpreendido por uma pisada no meu pé. Era um homem muito bem vestido com o seu terno e sapatos aparentemente novos e pontiagudos. Mas como a aparência não quer dizer nada, também não fez questão de pedir desculpas. Talvez a culpa fosse minha. Talvez eu tivesse na mão errada. Pessoas lentas devem andar na direita. Talvez eu que precisava pedir desculpas, pensei. Comecei a rir sozinho.

Fui atropelado duas vezes mesmo estando quase a passos de bebê de tanta gente que andava junto comigo. Passei para a direita e mesmo assim continuei sendo pressionado. Como assim?????  Me perguntava.  Tinha gente na  minha frente, gente do lado, parede do outro e o carinha atrás ainda tava querendo que eu saísse da frente? O único lugar era ir pra cima. Olhei  pra trás e disse: Me desculpa meu amigo mas voar “ainda” eu não posso. Acho que a piada foi em momento errado. Mas como ainda acho que bom humor não tem momento...

Isso aprendi com o parkinson. A não deixar ser controlado pela rotina, pelo dia dia, pelo tempo, pela mesmice e sim aproveitar cada minuto de nossa vida mesmo que a rotina faça parte dela.


Então eu digo para os parkinsonianos que aproveitem cada minuto. Utilizem a “lentidão” física para acelerar a qualidade de vida. E também digo aos cuidadores: Não percam a paciência com uma possível vagarosidade, pois nós aprendemos a viver ao contrário de muitos que ainda sobrevivem. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

"Eu fico com a pureza da resposta das crianças..."

É impressionante é a como é lindo a sinceridade e espontaneidade das belas crianças que encontramos no nosso caminhar diário.

Mas tenho um problema com crianças. Tudo bem, tudo bem. Voces devem pensar: Que homem mais ranzinza. Mas este não é o caso. Amo crianças, tenho uma sobrinha incrível e pretendo ter uma família com no mínimo 3 filhos. Me dou muito bem com eles em qualquer idade e também gosto muito.
Mas ultimamente andei reparando que esse pequeno ser sincero e espontaneo ultrapassa todos os limites da clareza.

No meu caso em relação ao Parkinson a questão é muito simples. Toda a criança, eu digo, toda a criança tem um sensor altamente aguçado para perceber o mínimo possível de tremor. Eu costumo chamá-los de TanderCats, pois os pequenos gafanhotos possuem "visão além do alcance".
Quando voce está bem, se sentindo confiante, sem nenhum tremor aparente me aparece uma criança do nada e diz: Tio, porque voce tá tremendo? Tá passando mal?

Uma coisa é certa, se eu não estava tremendo a partir desse momento, começo. A percepção aguçada das crianças em conseguir ver uma coisa ínfima me deixa com um sentimento mesclado de admiração e vontade de correr...hehehhee.

E logo após ao estado de águia que se encontram vem o desabafo sincero. Mas isso não me aborrece.
Hoje as crianças são um belo termômetro para mim. Quando vejo uma, já fico logo esperando que eles reparem... ou não. Se não comentarem nada é porque estou muito bem, melhor do que eu mesmo esperava. Se começarem a olhar fixo pro meu braço já sei que vão soltar alguma e preciso me acalmar.

No começo quando ainda estava aprendendo a lidar com o parkinson (digito em letra minúscula de propósito, não quero dar esse gostinho para a doença) eu dava algumas respostas atravessadas para os pequenos graciosos. Hoje, com a vivencia, já levo na brincadeira. Lógico e como não levar?

Ano passado, minha avô Emilia faleceu. Por mais que os seus 94 anos já a encaminhavam para um destino iminente a minha avô era muito forte. Ainda morava sozinha, fazia sua comida, realiza suas compras, comia um prato nas refeições que parecia que tinha acabado de bater uma laje, e os netos costumavam dizer que ela iria viver mais do que eles.

No dia do enterro dela, estávamos eu, o meus 2 irmãos e duas crianças. Estávamos lanchando quando as duas crianças, por incrível que pareça ao mesmo tempo,  olharam pra mim, se entreolharam e perguntaram para mãe:

- Mãe, o moço ali tá tremendo porque está doente? É por isso que ele está no cemitério?

Sim amigos, acreditem. Os pequenos anjos queriam me enterrar vivo!!!! 
Eu não estava tremendo, estava me sentindo bem. Mas elas conseguiram dinovo. Comecei a achar e externei isso em voz alta: Acho que isso não são crianças e sim unpa lunpas do Willi Wonka.

A questão é: Seria simples a minha solução ser me afastar e evitar o convívio com as crianças. Seria muito mais simples fugir dos problemas, de encarar o incerto. E não se enganem amigos, uma vez ou outra teremos que enfrentar situações que vão nos exigir humildade e controle por que sabemos como funciona o parkinson. Mas se tiverrmos acostumados a lidar com situações assim, saberemos administrar e se tudo der errado sempre soltar uma piada no final. É sério. Uma piada no meio de uma situação ruim é o mais indicado para manter nosso pé no chão e nos importarmos com o que realmente nos faz feliz.

Abraços.