segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A ordem do caos

Quando me vejo em situações como ocorrera no aeroporto em uma de minhas viagens me lembro da frase de Platão que diz: "Não é permitido irritar-nos com a verdade".

Oque aconteceu no aeroporto? Você está se perguntando. Melhor, Você está "me" perguntando.

É sabido de todos os que possuem parkinson, acredito que não sou unanimidade, de que quando estamos ansiosos ou ficamos timidos ou estamos com vergonha de algo, o tremor e a falta de coordenação aparecem subtamente. Os remédios podem estar em dia, voce pode estar super tranquilo e relaxado e todos os sintomas inexistentes, mas basta apenas uma situação constrangedora para tudo vir a tona, pelo menos no meu caso.

Confesso que ainda estou aprendendo a lidar com essas situações, a controlar a minha timidez. A não ficar ansioso quando acho que tem alguém me observando.

Alguém me observando... Essa é uma questão muito peculiar. Sempre quando um tremor acontece ou uma lentidão e falta de coordenação é perceptível fico observando se tem alguém me vigiando. É impressionante como sempre tem alguém fitando-me quando submerge algum sintoma. E quando percebo que o observador continua fixo, é nesse momento que fico mais nervoso e meus tremores viram uma metralhadora incansável. E quanto mais penso em controlar mais ele fica incontrolável.

Mas Rui, voce tem vergonha da doença? Não é isso que voce diz nas suas últimas histórias.

Não amigos, não tenho vergonha da doença. O que tenho é uma inexplicável aversão as pessoas que perguntam se "voce está passando mal", se eu quero "me sentar", se "eu preciso de ajuda". Mas não é o sentimento de carinho, preocupação e de solidariedade que deixam assim, mesmo porque gosto desses sentimentos, e sim o sentimento de pena que aflora em alguns quando digo que possuo parkinson.

Como já disse não possuo problemas nenhum em dizer sobre a doença mas quando a pessoa faz uma cara de "coitadinho", isso me deixa sem palavras. Não posso julgar ou evitar, é uma reação inconciente do nosso próximo.

Já notaram que quando voce encontra alguém conhecido que já sabe que voce possui parkinson ou ficou sabendo por outrem, essa pessoa já saúda voce olhando fixamente para o seu braço? E nas conversas subsequentes sempre dá uma olhadinha para baixo para observar se vai notar alguma coisa diferente. E eu fico pensando o que esta pessoa está querendo. Deve estar pensando: "Treme, treme, treme"... transparecendo que está torcendo para ver algum sintoma.

Em uma de minhas andanças uma linda e querida senhora percebeu o meu tremor e perguntou:

- Voce está passando mal?
Não. Disse eu, porque?
- Porque voce está tremendo?
Eu tenho parkinson, respondi.
- Coitadinho, disse a linda e simpática velhinha com uma feição de vô querendo abraçar o seu netinho e com um sorrriso que diminuia lentamente.
E eu disse:
A senhora quer me levar pra casa e me colocar na sua varanda?
Rimos juntos.

Bem, volltando ao assunto inicial estava eu no aeroporto na máquina de raio X. Não sei o que acontece comigo mas quando tenho que colocar todas as minhas coisas naquela esteira me dá uma sensação que todos estão me observando e então meus sintomas aparecem. O relógio fica difícil de tirar, o tenis também e se o detector de metais apitar aí "braços pra que te quero." Tenho que fazer um esforço para não deixar que meus movimentos involuntários me atrapalhem nessa passagem.

Não há motivos para isso, eu sei. Não existe problema nenhum. Mas normalmente isso acontece quando eu estou com a medicação fora do horário ou já estou ansioso por outra coisa. Juntando o fator esteira o problema se complica.

Nessa ocasião, a pessoal da esteira visualizando o meu nervosismo pediu para abrir a mala que estava levando na mão. Não tinha nada de especial dentro dela mas a funcionária do aeroporto, estranhando e claramente inventando uma desculpa de que possuia um líquido impróprio pediu para visualizar tudo o que estava dentro. Perguntei:

- O que voce está procurando? (Sendo simpático no intuito de ajudar)
Um liquido, disse ela.
- A única coisa que tenho aqui líquido, como a senhora pode ver, é o meu óleo para o rosto. Voce acha realmente que eu sequestraria um avião com 180 passageiros mais a tripulação e renderia o piloto com o meu perigoso e mortal óleo de aloe vera Jequiti para o rosto? Perguntei.
Ela rindo, disse:
- Não, pode passar senhorrrrrr... (e esperou que eu completasse a frase com o meu nome)
E eu disse:
- Muhammade Ali.

Amigos, existem situações que não podemos evitar e sabemos que vamos passar por isso sempre. Não adianta reclamar, ou invocar o mal ou soltar injurias ou praguejar em tais situaçoes. Vamos ter que enfrentá-las sempre. Então temos que saber lidar com a situação com antecedencia. Salomão já dizia: "O sábio vê a calamidade e passa a esconder-se". No caso, esconder aqui é se precaver de tal situação.

Hoje quando vou ao aeroporto já levo na mão uma bolsa com todos os meus objetos, dinheiro, papeis que estavam no bolso, moedas. Já tiro o relógio com antecedencia e coloco nessa bolsa juntamente com óculos de sol. Tudo pra chegar na esteira e não ter que ficar tirando tudo dos bolsos da calça e da camisa. Apenas pego a bolsa e mando para o raio X, sem estress e sem problemas.

Não evite a situação, não se anu-le. Apenas aprenda a lidar com elas a sua maneira.
Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos. É justamente porque não ousamos que tais coisas se tornam difíceis.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Aos vencedores, os despojos!!!

Tenho um colega que sempre reclama comigo de como o serviço publico no "Brasil" é ruim. Sempre falando de suas filas enormes e na burocracia para conseguir os medicamentos. E sempre relembrando que outros países são melhores e mais humanos do que o nosso.

Ouço atentamente todas as suas observações e reclamações. As vezes acho que ele me vê como ouvidoria da presidência da república ou do Ministério da Saúde.

Em nosso último contato comecei a questioná-lo:
- Meu amigo, você teve algum problema em pegar os seus remédios? Teve algum que você não conseguiu?
- Não Rui, todos eu consegui.
- Então não existe motivos para reclamar dos medicamentos, comentei. E outra a burocracia se faz necessária. Se pensar um pouco vai verificar que é preciso comprovar pro governo que voce precisa, pois podem existir várias fraudes.

Essa situação é parecida quando ligamos no 0800 do nosso banco e o atendente nos pede para confirmar várias informações pessoais desde CPF, endereço até o nome do bichinho de estimação da nossa ex-namorada (exagero). Muitas pessoas não tem a paciência de informar tudo isso, mas pense no contrário. Se o seu dinheiro fosse usado indevidamente por outra pessoa e você descobrisse que é muito fácil o acesso a sua conta, você também estaria reclamando por falta de segurança por parte do banco. Quer dizer, sempre pensamos apenas do nosso jeito.

Bem, continuando a minha conversa com esse meu colega, perguntei:
- Quanto tempo você fica na fila quando pega medicamentos?
- Em torno de 1:30 normalmente, disse ele.
- Você está reclamando que de suas 720 horas no mes é difícil perder uma hora e meia para conseguir medicamentos de "graça"?
- Já tentou utilizar a Secretaria de Saúde em outro estado Brasileiro?
- Não, respondeu ele.
- Então não pode reclamar de todas as instituições do Brasil correto?
- Quer dizer que você consegue toda sua medicação, demora apenas uma hora e trinta para pegá-la, tem continuidade no recebimento e ainda consegue tirar alguma coisa para reclamar?

Nesse mesmo dia estava na rodoviária e estava em pé na fila do ônibus que ainda não havia chegado ao local. Estava indo para outra cidade na ocasião.

Estava um pouco nervoso e como todos sabem o nervosismo ajuda o nosso amiguinho parkinson a se manisfestar. No meu caso o tremor e perda de um pouco de coordenação.

Alguns minutos depois, fui abordado por um mendigo que por razões obvias me pedira dinheiro, apenas umas moedinhas.

Estava com moedas e alguns papeis no bolso. Enfiei a mão para retirar algumas. Mas como sabemos que "nem tudo são flores" minha falta de coordenação começou a agir. O resultado, consegui pegar apenas uma moeda de 25 centavos. Para não me complicar entreguei a moeda ao pedinte e voltei a colocar a mão no bolso para pegar outra moeda.

Nesse mesmo momento tive uma perspectiva física. Compreendi que o tempo passa mais rápido para você (no caso eu que tenho parkinson) do que a pessoa que está me observando. As vezes como nos acostumamos com os nossos sintomas não percebemos que somos lentos ao olhos de outros. É parecido com a teoria da viajem na velocidade da luz em que o tempo passa mais devagar para o que está viajando do que as outras pessoas. E nesse caso o mendigo estava na velocidade da luz. Tanto é verdade que ele nem esperou eu pegar outra moeda e já foi devolvendo a moeda de 25 centavos que eu havia entregado, finalizando a devolução com os seguintes dizeres:
- 25 centavos eu não preciso não...

Eu sinceramente não sei que sensação eu tive na hora. Foi estranho. Não tive raiva ou outro sentimento negativo. Mas foi uma sensação de incompreensão.

Fiquei pensando: O Brasil teve realmente uma melhora em sua suas classes sociais. Agora até os mendigos possuem um piso em suas contribuições recebidas. Não é só porque o dinheiro é de graça e sem esforço nenhum que pode ser qualquer coisa....Não!!!!!

Talvez em pouco tempo veremos pedinte com carnê, outros com a maquininha da Cielo e até alguns que cobram mensalidade para aquelas pessoas que encontram o mesmo mendigo no seu dia a dia indo para o trabalho e não querem ter o incomodo de fazer o mesmo processo todos os dias.

Depois dessa conversa com meu amigo fiquei pensando em como existem pessoas que possuem uma mente volúvel e depois da situação na rodoviária fiquei pensando em como as pessoas sempre acham motivos para reclamar de tudo. Muitas não são formadoras de opiniões mas apenas seguem a maré.

Esses fatos se comungam para mostrar em como as pessoas nunca estão satisfeitas com o que possuem e não pensam como tem sorte de as tê-las. "O que é demais nunca é o bastante" já dizia Renato Russo.

Quero aproveitar esse blog e ser justo com o serviço que muito utilizo. Gostaria de lembrar que não sou afiliado a nenhum partido político. Não estou defendendo nenhum governo. Só quero reportar aquilo que vejo e que eu vivencio.

Como todo parkinsoniano também obtenho meus medicamentos pela Secretaria da Saúde, no meu caso em Belo Horizonte e não poderia deixar de salientar o como é eficiente este serviço.

Desdes os primeiros passos para a aquisição da medicação fui muito bem atendido por todos na secretaria de saúde de Belo Horizonte. Desde o recepcionista ao farmacêutico. Sempre se esforçando em me ajudar, procurando resolver os problemas e quando não conseguiam me davam toda a atenção para me instruir a resolver.

Lógico, por se tratar da Secretaria de Saúde é evidente que em vários momentos se apresentam cheios de pessoas que também possuem o meu mesmo objetivo. Mas mesmo quando o local está com sua capacidade lotada os recepcionistas, enfermeiros sempre me atenderam muito bem.

Quando tive problemas com a minha medicação roubada (acreditem roubaram minha medicação) ou quando eu tive que utilizar medicamentos a mais, os responsáveis na Secretaria de Saúde de Belo Horizonte faziam questão de me ouvir e buscavam soluções (mesmo não sendo obrigados a me atender). Antes de qualquer ação sempre me perguntam se eu tenho medicação suficiente, se eles podiam me ajudar de qualquer forma...

Albert Einstein dizia que:
Só há duas maneiras de viver a vida:
A primeira é vivê-la como se os milagres não existissem,
A segunda é vivê-la como se TUDO fosse um milagre! 

Abraços.