sábado, 3 de outubro de 2015

Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo, prefiro acreditar no mundo do meu jeito.

Quando estava voltado do trabalho, de carro, parado em um sinal em Belo Horizonte tarde da noite, reparei que havia um morador de rua e que possui uma quantidade considerável de mercadorias. Posso ter certeza que essa mercadoria ele deixara ali para realizar a venda no sinal. Mas ele não
estava fazendo as vendas. Porque?

- Porque ele estava ocupado lendo alguma coisa no celular. E entretido escrevendo alguma coisa com muita concentração. Suponho que estava respondendo a alguma mensagem. E então comecei a ver como, parece uma redundância o que vou falar, mas comecei a reparar na globalização da comunicação. Ela atingiu todos os níveis sociais e todo o processo costumeiramente criado.

Lembro a alguns dias atrás quando o meu carro teve que ficar na oficina e eu fui obrigado a andar de ônibus. Não, sei que estão perguntando, mas a resposta é: não!!!. Não tenho nenhum problema em pegar ônibus. Mas a muito tempo, desde que eu tenho carro, eu raramente voltei a andar de ônibus metropolitano.

Bem o que importa é que eu estava no ônibus. E quando eu entrei eu passei pela catraca e olhei para frente para verificar onde eu iria sentar, qual cadeira estava livre. Normalmente quando se faz isso você costuma olhar para todos os lugares, mas você olha para as pessoas também e elas olham para você. Algumas viram a cara rapidamente, outros te encaram, e alguns não reparam a sua entrada e ficam conversando ou distraídos com movimento da cidade visto pela janela. Dessa vez quando entrei no ônibus o mesmo estava com todos os lugares ocupados e apenas uma pessoas em pé. Eu também ficaria de pé naquele momento.

Neste instante reparei que “todos”, eu disse “todos” estavam de alguma maneira distraídos ou ocupados com o celular. Mensagens, email, what´s up, vídeos, posts, instagram. Não importa. Todos estavam ocupados com algum tipo de mídia ou rede social.

Quando é que o interesse pelo o humano se tornou tão desnecessário. Você está sentado do lado de uma pessoa no ônibus e tem a chance de alguma forma conversar com ela. Talvez ela tenha uma história engraçada para contar, talvez seja um exemplo de luta de vida, talvez o dia a dia dela lhe mostre o quanto sua vida é excepcional, talvez seja uma pessoa engraçada (apesar da cara amarrada à primeira vista), talvez seja um jovem ou um idoso com um conhecimento ou opinião sobre política que você nunca tinha pensado, talvez seja um profissional das artes, um escultor, um escritor. Talvez não tenha profissão, mas a sua simpatia em te ouvir lhe deixe a vontade. Talvez seja uma pessoa que lhe diga alguma coisa que toque o seu coração e você nunca se esquece daquilo. Talvez seja de uma religião que você já ouviu falar e tenha preconceito ou que você nunca ouviu falar. Talvez você tenha preconceito esse preconceito vire respeito e a novidade religiosa te faça expandir a mente. Talvez seja uma pessoa que acredite em Et´s e seja até engraçado. Talvez seja um evolucionista. Talvez seja um criacionista. Talvez não acredite em Deus. Talvez seja uma pessoa que aprendeu tanto com a vida que poucas afirmações lhe ajudem no seu dia a dia ou são provas de persistência e auto-afirmação que sua própria visão da vida o anime a você continuar sua caminhada. E quando você tem que descer no seu ponto de ônibus, o termo “prazer em conhecer” não é futilmente dito como apenas uma forma sutil de terminar a conversa.

As pessoas hoje perderam o prazer de estar juntos. É impressionante o paradoxo da comunicação hoje em dia. A tecnologia hoje nos aproximou de nossos familiares, amigos que não víamos e nem conversávamos a muito tempo. Conseguimos conversar com todos a qualquer momento. A qualquer hora do dia. Mas já percebeu que o contato físico ficou menos importante. Já reparou que é mais fácil dizer que está com saudades de sua mãe pelo whatsup do que realmente dar um abraço nela: Já foi de sua observação que cada dia as pessoas tendem a resolver os problemas ou questões particulares por mensagens: Mais fácil:

Não digo que é mais fácil, mais sim mais cômodo, pois é mais fácil você ter coragem de “escrever” coisas desagradáveis ou opiniões divergentes quando você não está cara a cara com os envolvidos ou a situação.

A mesma tecnologia que juntou as pessoas é a mesma que as afasta.

Falo isso também em relação ao grande movimento fotográfico da história da humanidade. As selfis. Não, não estou dizendo que sou contra, pois também tiro. Mas as vezes fico impressionado com viagens que faço e vejo o quanto a pessoa tira self dos lugares e momentos ou até mesmo fotografias normais. Enquanto elas fazem isso o "momento" passa.

Eu entendo, porque eu também tiro fotos de coisas legais quando estou viajando. O que estou querendo enfatizar é que as pessoas se preocupam tanto em “postar” as fotos em redes sociais e mostrar o que estão fazendo ou lugares que estão ao invés de viver aquele momento. As pessoas estão mais preocupadas em “mostrar” do que em “sentir”.  Perdem a mágica da vida pelo ato de exibicionismo.

O que isso tem haver com o Parkinson? Nada. Mas só comecei a enxergar certos comportamentos fugazes viciantes depois que tive de lidar com o Parkinson. Pena que temos de esperar alguma coisa acontecer para enxergarmos com nitidez o que é realmente relevante.

Como dizia Charlin Chaplin:


...Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria.


Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.

Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.